sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O pecado de malícia, alguns remédios, etc.

Sidney Silveira
É clássica a divisão geral dos pecados por ignorância (defeito no entendimento), paixão (defeito no apetite sensitivo) e malícia (defeito na vontade). E aqui, surge uma questão teológica de grande importância: a da remissibilidade do pecado de malícia, em razão do seu dolo (veja-se a questão 78 da IªIIª da Suma Teológica). Dolo cuja gravidade é proporcional à matéria a que se refere — sendo o dolo em matéria religiosa o mais difícil de remir.

Santo Tomás, na já citada questão 78, diz que o pecado de verdadeira malícia se dá quando a vontade se move a um mal, o que pode acontecer de dois modos: por uma disposição corrompida transformada em hábito; e pela remoção de algo que impeça, formal ou materialmente, a ação maléfica, como no caso de alguém que deixa de pecar não porque isto desagrade a Deus, mas porque tem medo do inferno, e, neste caso, quando cai no desespero (que é a perda da esperança na salvação), o homem torna-se um malicioso desenfreado. Veja-se que até o motivo que nos faz evitar o pecado importa, e muito.

Ora, que o pecado de malícia é de difícil remissão se deve ao fato de que a malícia impede o arrependimento, condição indispensável para o perdão divino. As palavras de Santo Tomás, neste caso, servem para nos deixar alertas, pois são terríveis: A malícia torna-se uma qualidade permanente na alma. Mas, ainda para estes casos, há remédio, como veremos.

Alguns dos principais, para o católico, são: oração, freqüência aos Sacramentos, confissão habitual (duas vezes por mês seria ótimo, de acordo com alguns experimentados diretores espirituais), pequenas mortificações do corpo com intenção sobrenatural, jejum. E, na oração, pedir o principal, que é o Reino de Deus, pois tudo o mais nos será dado por acréscimo (cf. Lucas, XII, 31); ou, nos casos de pedidos relativos a coisas contingentes, subordiná-las ao fim último — como por exemplo alguém que peça alguma coisa material para poder servir melhor a Deus, como um estudante de filosofia ou de Teologia que peça uma bolsa de estudos para servir à fé (pois a Igreja, em todos os tempos históricos, sempre precisa de quem o faça, pois a messe é grande e os trabalhadores são poucos [cf. Mateus, IX, 37], razão pela qual o próprio Cristo nos aconselha a pedir a Deus que mande mais trabalhadores para a messe).

Rezemos, pois, para não cairmos jamais em tal estado de pecado grave de malícia, e, depois, por aqueles que por desventura já estiverem nele — para que recebam Graças atuais em abundância. E rezemos com confiança, tendo à nossa frente a bela definição que nos legou o Angélico Doutor: Confiança é uma esperança fortalecida por inabalável convicção (Suma Teológica, IIª-IIª, q. 129, a.6, ad3.). Esta é a convicção da fé, sem a qual não somos capazes de encontrar os remédios certos para os dramas da nossa própria alma, nem de suportar com espírito cristão os dramas alheios — como sejam, por exemplo, o das pessoas que nos odeiam.

Em tempo: Agradecemos ao apoio das inúmeras pessoas que vêm lendo o blog diariamente. Com certeza, continuaremos o trabalho, que de quixotesco nada tem — dada a clareza e objetividade dos temas tratados. Quixotesco é buscar a felicidade longe de Deus.
Em tempo 2: A essas pessoas amigas, aviso: a pequenina editora Sétimo Selo — de cuja linha de publicações muito me orgulho de ser o responsável — apresentará mais dois novos livros, ainda neste ano. Com a Graça de Deus.